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Descarbonização – Hidrogénio – Mobilidade: o caminho para o futuro

A Jornada sobre Descarbonização – Hidrogénio – Mobilidade, organizada pela APD em parceria com a Associação Industrial Portuguesa (AIP CCI), levou a palco as questões mais relevantes do momento sobre a transição energética. Os desafios da descarbonização, amplamente conhecidos e transversais, têm sido discutidos pela comunidade e pelos agentes empresariais, na tentativa de possibilitar uma gestão informada e estratégica face aos mesmos.

O Secretário de Estado Adjunto e da Energia, João Galamba, abriu a sessão garantindo que uma maioria significativa dos países se encontra empenhada nesta missão e que, no caso português, os incentivos e as vantagens da descarbonização são particularmente evidentes – pelo que “ser ambicioso faz sentido”.

Estamos a criar as bases legais e regulatórias, e temos condições e músculo financeiro suficiente para que a nossa ambição na estratégia tenha correspondência com a capacidade de execução.

Reconhecendo que a eletrificação não é suficiente para responder ao consumo existente, o representante do Governo assegura que a opção do hidrogénio (H2) verde se integra perfeitamente na estratégia. Ou seja, a disponibilidade de eletricidade renovável, bem como a sua competitividade, torna possível a aposta no hidrogénio; inversamente, este vetor energético possibilita e facilita as renováveis. Mesmo do ponto de vista puramente económico, Galamba assinala que o edging de um agente que participa nos dois mercados – em eletricidade e em hidrogénio verde – permite uma estabilização dos seus frutos financeiros: “o que também é uma boa notícia para o investimento na própria eletricidade renovável”, afirma.

Temos uma abrangência suficiente no nosso sistema energético, com base 100% renovável, que nos permite olhar para as metas de 2030 com maior confiança.

Já relativamente à mobilidade, o hidrogénio parece ser também complementar aos veículos elétricos a baterias –principalmente na mobilidade pesada de passageiros e mercadorias. O Secretário de Estado reafirma, assim, a missão do Governo, que diz ser forte e intencionada, mas esclarece que existem interesses pela neutralidade. O objetivo governativo passa, portanto, pela criação de condições adequadas e modernizadas no mercado energético, mas pretende-se que haja espaço para que os agentes económicos façam as suas escolhas.

A responsabilidade de descarbonizar face às alterações climáticas

Ana Quelhas, diretora do planeamento energético da EDP, assinala que a necessidade de descarbonizar é um consenso, enfatizando a responsabilidade adicional do setor energético. É neste setor que se verificam as maiores emissões de gases poluentes para a atmosfera, por isso, a transição é o único caminho possível. Face ao desafio que estas mudanças representam, há tendências muito disruptivas: desde logo, a necessidade de diminuir o consumo de energia; depois, a necessidade de reduzir ao máximo as emissões por meio de combustíveis fósseis.

A especialista garante que a eletricidade não vai chegar a todo o lado e que, por isso, continuará a ser preciso gerar energia em forma gasosa descarbonizada, e é precisamente aí que entra o hidrogénio. Ao contrário de outros tipos de vetores energéticos, o H2 é muito versátil, além de ser uma forma de matéria-prima – nomeadamente para ser fonte de energia em usos específicos, onde a eletricidade poderá não chegar.

Estamos mesmo a falar de uma disrupção muito grande na forma como consumimos energia.

Nuno Ribeiro da Silva, presidente da Endesa Portugal, realça também que a solução do hidrogénio não vai colocar um fim à problemática das alterações climáticas. Enfatizando que há muita falta de informação e mal-entendidos sobre o tema, o orador entende que é fundamental perceber que a mudança é gradual e progressiva.

Num segundo plano, o engenheiro considera que a estratégia do H2 só faz sentido se as pessoas estão preocupadas com o aquecimento global e com as alterações climáticas. Se a comunidade não aceita esse cenário, perde-se a necessidade urgente de implementar as medidas convencionadas.

Temos que estar sob este chapéu das alterações climáticas para olhar para a oportunidade e para o contributo que o hidrogénio pode trazer.

Não há dúvida que Portugal tem vantagens no que toca ao H2: uma diferente palete de energias renováveis, que nem todos os países têm. Além disso, o timing parece o ideal, pois, não só em Portugal como em toda a Europa, chegou o momento de criar uma política industrial em torno deste vetor, de um modo racional. No entanto, o presidente da Endesa Portugal adverte que é importante não planear demasiado, pois há muita coisa a mexer e o puzzle vai continuar a ser ajustado. Estabelecer metas é fundamental, mas o importante, agora, é permitir que os agentes económicos criem negócio, testem cadeias de valor, “apalpem” terreno e identifiquem barreiras.

Também Sérgio Machado, diretor de Global Business Development da GALP, enfatiza a inevitabilidade da transição energética. E no que respeita ao hidrogénio, assume que o padrão é altamente favorável à consolidação do vetor na matriz energética, referindo que as estimativas de algumas organizações apontam que este poderá vir a ser tão importante, em 30 anos, quanto a eletricidade é hoje.

Se o fizermos agora vamos ter as vantagens de quem começou cedo, mas também vamos poder aproveitar os incentivos disponíveis, que não vão estar noutros momentos.

O especialista recomenda, portanto, que o setor energético atue o quanto antes e que tire partido do momento atual. Não só é uma oportunidade para reforçar o sistema energético, como é uma adição de energia mais segura e limpa, que será competitiva no futuro. Não existe nenhum motivo válido para adiar a implementação, ou para a desconsiderar. A necessidade de diminuir as emissões de gases de efeito de estufa é gritante e o decréscimo no custo das renováveis verifica-se muito significativo – temos o exemplo do custo das tecnologias de hidrólise, que caiu 60% em 10 anos.

Simultaneamente, a conjuntura mundial está a seguir a tendência do H2, e as estratégias chegam de cada vez mais países. A União Europeia tem ambições e suporte financeiro para concretizar a sua estratégia e há um conjunto alargado de atores (do setor da energia, mas não só) que têm interesse e vontade de sedimentar o hidrogénio como parte da nova solução energética.

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Portugal como exportador de hidrogénio

Embora a competitividade do H2, atualmente, esteja ainda a formar-se, o consenso dos especialistas do setor aponta que Portugal irá ter um papel relevante enquanto exportador. Os recursos renováveis que existem no território nacional, caraterizados por bom sol, bom vento e águas profundas, representam uma grande vantagem.

À escala global, Portugal terá, certamente, concorrentes muito fortes na exportação, nomeadamente em África e na Ásia. Ainda assim, e como assinala Ana Quelhas, “estamos muito bem posicionados para ter excedentes competitivos de hidrogénio” e muitos dos projetos nacionais encaixam numa lógica de exportação. Prevê-se, portanto, que o nosso país poderá tirar partido dos recursos que possui e vir a consolidar-se como um player ativo nessa área.

Os custos associados a e falta de competitividade

A questão do custo é, evidentemente, um tema crítico a ter muito em conta. Mas Ribeiro da Silva relembra que há situações em que não se pode optar linearmente pelo mais barato. Se a preocupação com as alterações climáticas, inclusivamente a contaminação das cidades, é honesta e real, há alguma coisa a adaptar nas economias, no sentido de mitigar os impactos negativos a nível macro, regional e local.

A diretora do planeamento energético da EDP explica, também, que é necessário ter um enquadramento regulatório favorável no início, uma vez que, atualmente, o hidrogénio não é suficientemente competitivo no mercado. Segundo a oradora, nem todos os usos do H2 apresentam o mesmo nível de competitividade e o espaço mais promissor para este vetor energético é na indústria e na mobilidade. Especialmente em refinarias, na produção de aço, nas indústrias químicas, e, claro, nos transportes pesados de mercadorias de longo curso – num segundo plano, também nos pesados de passageiros.

Da mesma forma, José Campos Rodrigues, presidente da Associação Portuguesa para a Promoção do Hidrogénio (AP2H2), aponta a mobilidade como o primeiro grande fator diferencial do H2. No entanto, depois daquilo que descreve como um “susto” em volta da finitude dos combustíveis fósseis ter sido ultrapassado, devido às reservas existentes de gás natural, o entusiasmo em redor do hidrogénio e das suas implementações esmoreceu significativamente.

Numa segunda fase, mais recente, com o seu ponto alto a partir da conferência de Paris (2015), chegou o segundo susto ao nível da Humanidade. Desta feita não foi devido aos combustíveis fósseis, mas antes pela urgente necessidade de controlar e diminuir as emissões de gases poluentes (CO2) para a atmosfera. A partir desse momento, o hidrogénio ganhou o novo impulso que se mantém até hoje. Criou-se, assim, um consenso político alargado sobre este vetor, não como solução absoluta, mas como parte da solução.

Em relação aos custos associados, Campos Rodrigues assegura que podemos ter uma expetativa positiva. Para o especialista, o hidrogénio pode facilmente criar condições para entrar no sistema energético com custos competitivos, fazendo frente a outros setores energéticos mais tradicionais. O presidente da AP2H2 vai mais longe e afirma que o hidrogénio vai contribuir para a descarbonização do ponto de vista da rede de gás natural, podendo, eventualmente e a médio prazo, ser o vetor energético que o substitui.

O H2 vai permitir dar solidez e resiliência a um sistema energético que deve ser predominantemente assente num quadro de energias renováveis.

Ao mesmo tempo, esta é uma fase que exige alguma tolerância quanto à ótica dos custos. Há vários fatores que vão condicionar a cadeia de valor do H2. Por um lado, a dimensão dos equipamentos de produção; por outro, o problema do tempo de operação do eletrolisador. E ainda outros dois fatores adicionais: a produção industrial, porque se pode passar do artesanal para uma produção em massa; e a evolução tecnológica, que joga com a eficiência da produção. À medida que o mercado cresce, as condições para otimizar as formas de produzir serão criadas.

Em relação à resposta do mundo empresarial face à estratégia nacional para o hidrogénio, o especialista mostra-se satisfeito e, até, positivamente surpreendido. Não deixando de apontar a falta de literacia que ainda existe sobre o tema, o presidente da AP2H2 faz questão de assinalar, também, o esforço que tem visto nos quadros das empresas para enfrentar o desafio que a transição energética representa.

O princípio do poluidor-pagador

O hidrogénio verde, hoje, não é competitivo – se fosse, o mediatismo em volta do tema não seria tanto. Contudo, e como assinala Ana Quelhas, essa condicionante prende-se com a agravante do carbono, o que, por si só, cria uma ideia de competitividade distorcida. Só faz sentido falar do H2 numa lógica de descarbonização, por isso, o facto do hidrogénio cinzento ser mais barato que o verde não é um argumento válido para travar uma mudança de paradigma no setor. Tratam-se de dois produtos completamente distintos, em que um tem conteúdo carbónico nulo e o outro não.

A especialista da EDP acredita que o gap de competitividade se irá estreitar, também pelos próprios custos de produção – tecnologia e renováveis. Se o caminho for percorrido com uma mentalidade de aprendizagem tecnológica e procura dinamizada, incentivada por um enquadramento regulatório fiscal que seja condicente com a necessidade de descarbonizar, a falta de competitividade do hidrogénio verde deixará de ser um problema, eventualmente, no espaço de uma década.

Até lá, os incentivos têm que existir e devem estar enquadrados através do princípio do poluidor-pagador. Ou seja, em concreto, deve fazer-se uso de instrumentos fiscais que sirvam para que aqueles que poluem paguem mais por isso.

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