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Mercado de Fusões e Aquisições – Previsões para 2021

O mercado de fusões e aquisições (M&A – Mergers and Acquisitions) tem apresentado um desempenho notável nos últimos anos, acompanhado por uma performance muito positiva dos mercados bolsistas. O contexto português não é excepção e tem sido palco de inúmeras transações de grande dimensão, com valores que vão desde as dezenas de milhões de euros e que chegam a ultrapassar os mil milhões de euros, em diversos setores de atividade.

Em 2020, com a pandemia, verificou-se uma queda rápida do número de transações. Porém, o segundo semestre exibiu uma recuperação bastante forte e, claro está, surpreendente face ao contexto desafiante em que vivemos. O que pode justificar esta performance positiva do mercado? E o que se perspetiva para o seu futuro?

Eduardo Rocha, fundador e CEO da Vallis Capital Partners, explica que a retração inicial que derivou da crise sanitária possibilitou a capitalização dos operadores. Caracterizando este fenómeno como algo expectável após um cenário tumultuoso, o especialista acrescenta que, em suma, se gerou uma oportunidade de transferência de riqueza.

Houve um comportamento, inicialmente, de retração, e depois de captura de oportunidades.

Também João Leal, parceiro e consultor da KPMG, vê o excesso de liquidez existente no mercado de fusões e aquisições, atualmente, como o principal catalisador da rápida recuperação do mesmo. Apesar da quebra que se verificou na maioria das economias globais, o rápido desenvolvimento das vacinas já fazia adivinhar uma regeneração ágil. O especialista considera, ainda, que Portugal teve um comportamento excecional e que as boas expetativas para o mercado de M&A deverão manter-se nos próximos quarters.

Como é que as empresas podem aproveitar a liquidez?

Em relação a gerar valor, Eduardo Rocha defende que a rentabilidade deve ser uma prioridade. Segundo a sua ótica, crescer e inovar, simultaneamente, é perfeitamente possível, aproveitando o cenário favorável para dar saltos quânticos.

Os empresários devem aproveitar esta oportunidade de liquidez para escalar e apostar em inovação

Numa mesma lógica, Leal assinala que as estratégia de evolução das empresas portuguesas devem lutar por uma maior presença em mercados internacionais. Contrariando o paradigma dos últimos anos, em que a tendência esteve altamente voltada para os mercados dos PALOP, o momento atual deve encaminhar o crescimento das empresas para rotas de convergência com organizações mais experientes que, no longo prazo, atingiram melhores resultados.

A resistência que se verifica na abertura de portas a investidores, no panorama de private equity, também se pode revelar um desafio. Sendo um setor consideravelmente recente em Portugal, e ainda pouco desenvolvido, a falta de ambição e a postura reticente dos empresários acaba por travar o potencial crescimento e limitar os seus horizontes. O especialista da Vallis reforça que o setor faz muito mais do que aportar capital; existe, além disso, uma parceria com os gestores, que possibilita um acompanhamento comprometido e responsável durante todo o processo.

Num mundo que está permanentemente a crescer, a mudar e a evoluir, quem não cresce está a definhar sem se aperceber. Por isso mesmo, Leal considera que os private equities são uma grande mais-valia para as empresas. Não só porque entram com conhecimento, mas também porque instalam melhores práticas e apresentam uma visão bastante mais avançada do que deve ser o ritmo de evolução dos negócios. Ademais, estes investidores entram, normalmente, com uma estratégia muito bem definida quanto à sua saída.

Os investidores de private equity não são investidores de longo prazo

O especialista da KPMG reforça que, para alavancar crescimento, é bom que os fundos de private equity tenham a opção de saída – com a qual, usualmente, todos os intervenientes ficam a ganhar. Essa estratégia coloca os financiadores ao mesmo nível que os empresários, uma vez que o exit só é possível se houver liquidez. É necessário que a empresa caia no radar de outras organizações, de maneira a ser comprada.

Os fundos pagam preços excessivos pelos ativos?

Uma das apreciações mais recorrentes a respeito dos fundos de private equity prende-se com os preços que pagam pelos ativos. Especificamente, apontando que os valores são demasiado altos, quando comparados com aqueles que a indústria pagaria.

Embora João Leal e Eduardo Rocha considerem, ambos, que essa é, de facto, a realidade a nível global, o caso português não condiz com essa tendência. Tendo em conta o estado embrionário do setor no território nacional, a maioria dos fundos portugueses tem alguma dificuldade em entrar em mercados competitivos. Assim, e reconhecendo que a Vallis é praticamente um player fundador do setor em Portugal, os fundos nacionais têm, devido às restrições e à dimensão do mercado, um comportamento pouco competitivo, pagando, muitas vezes, o fair value.

Já no paradigma internacional, os fundos apresentam, frequentemente, perspetivas de crescimento dos negócios que implicam previsões otimistas face à economia. Esse comportamento acontece, maioritariamente, por duas razões: ou porque, nos últimos anos, entrou muito dinheiro de private equity nesses fundos e há necessidade de investir; ou devido à crescente alavancagem, por exemplo, em fundos de dívida. Contudo, existem casos de sucesso, em que os múltiplos foram altos mas a rentabilidade verificou-se.

O impacto do fim das moratórias no mercado de fusões e aquisições

A preocupação é o sentimento comum entre os especialistas quando o tema toca no fim das moratórias, previsto para setembro deste ano. O excesso de alavancagem existente nas empresas portuguesas fez do recurso a esses adiamentos algo essencial, não só durante a crise como também para a recuperação pós-pandemia.

Leal assegura que, depois de atingido esse prazo, os riscos são vários. Esperam-se situações de insolvência ou pré-insolvência, principalmente para empresas que já não apresentavam muita rentabilidade operacional anteriormente. Ao mesmo tempo, o alargamento do prazo das moratórias não parece ser uma solução viável no caso de organizações que se encontravam em situações delicadas. Por outro lado, poderiam fazer a diferença nas empresas que, numa conjuntura normal de mercado, têm bons resultados.

Prevejo que alguns fundos internacionais comecem a ter um papel relevante no M&A de distress assets em Portugal

Rocha acrescenta que, agora, é mais importante começar a pensar na estrutura de pagamento das dívidas do que na possibilidade de estender as moratórias. Considera que seria importante definir um instrumento, mais ou menos consensual, dentro da banca, que definisse termos de reestruturação gerais; orientações relativamente transversais, simples e abrangentes, que se adaptassem aos diferentes contextos de cada empresa. Dessa forma, iria evitar-se que a situação se transformasse num ciclo de decisões individuais, levadas caso a caso.

Quanto ao futuro do mercado de fusões e aquisições, as opiniões especializadas preveem uma continuação das oportunidades crescentes, principalmente com grandes ativos, em Portugal e também noutras geografias.

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