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Desafios e oportunidades económicas na nova geoestratégia global

As empresas portuguesas debatem-se, hoje, com questões críticas de geoestratégia. O posicionamento estratégico provocado pela pandemia revela-se muito particular, principalmente no que toca aos próximos desafios das organizações e respetivas equipas de gestão. Os mercados internacionais e a promoção de produtos e serviços, bem como as linhas de cooperação para o futuro, são temas que estão na agenda de interesses dos empresários. Mas o mundo global em que vivemos, e o momento sensível que atravessamos, veio colocar à prova os modelos estratégicos que vigoraram até aqui.

Ao mesmo tempo, os acontecimentos políticos e tecnológicos não congelaram com a chegada da pandemia. As eleições americanas resultaram na subida de um novo presidente ao poder; a expansão da China, por todo o mundo, continua crescente, principalmente no domínio da tecnologia; e a União Europeia (UE) mantém-se indefinida, embora a nova Comissão, eleita no final de 2019, pareça querer iniciar alguns processos importantes de mudança.

O duopólio asiático

A pandemia acelerou a transição digital, a mudança tecnológica e a conetividade. E é no seguimento dessa aceleração que as empresas portuguesas terão os seus maiores desafios durante os próximos anos. Tal como defende António Costa Silva, consultor do Governo português para a Proposta do Plano de Recuperação e Resiliência, o desenvolvimento do tecido empresarial deve apostar fortemente na digitalização, não só na preparação dos seus quadros como, também, no uso das tecnologias digitais e dos sistemas inteligentes.

O impacto destas novas tecnologias digitais pode ser 10 vezes mais rápido que a revolução industrial e a uma escala 300 vezes maior.

O especialista, que vê o ciberespaço como um possível eixo estratégico de reorganização da economia, alerta para as oportunidades geradas por este elemento. Desde o alargamento do mercado ao aumento da velocidade das interações, não sobram dúvidas quanto ao caminho a seguir. É necessário atentar à formação de talento, para que existam competências que permitam a digitalização das empresas e das indústrias.

A competição e a hostilidade entre os Estados Unidos da América e a China desenrolam-se, continuamente, no universo da tecnologia – o que também diz muita coisa sobre a postura que a Europa deve adotar. E como a China é, hoje, responsável por 25% de toda a investigação que se faz no mundo, o continente asiático ganha um crescente domínio tecnológico.

Consequentemente, Costa Silva assinala que a grande fratura sísmica da geopolítica mundial, até agora localizada no golfo Pérsico, vai provavelmente passar para a Ásia. Uma vez que a norte-americana Intel está a perder liderança, os dois grandes players restantes, que dominam a indústria de semicondutores e de circuitos integrados, fundamental para o funcionamento de uma civilização tecnológica avançada, são a Samsung (Coreia do Sul) e a TSMC (Taiwan).

O duopólio asiático arrisca-se a ser um dos grandes polos geopolíticos do nosso tempo.

O consultor do governo português relembra que quem dominar estas tecnologias vai dominar a Internet das coisas e as cidades inteligentes. A luta titânica entre EUA e China vai, portanto, formatar a geoestratégia mundial e, muito provavelmente, ajustar o conceito de globalização.

O papel da União Europeia na geoestratégia global

O papel da União Europeia no meio desta “luta” entre as duas superpotências também é algo importante de definir. E embora não haja grandes dúvidas quanto à continuidade do domínio dos EUA, a China tem tido um percurso impressionante e uma rota de crescimento notável, com uma economia sofisticada que está profundamente imbricada com a americana.

A nova presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, traz um ar fresco na liderança e, ao longo dos últimos meses, tem conseguido desenvolver processos assinaláveis. Colocou em curso uma resposta face à crise pandémica, emitindo uma dívida conjunta pela primeira vez na história, com um grande pacote de ajuda. Mas Costa Silva teme a lentidão na execução, algo que considera uma das maiores falhas da UE. Com 27 democracias em jogo, torna-se difícil forjar os consensos.

O projeto europeu está, hoje, sobre tensão e é preciso defendê-lo. Tem muitas imperfeições.

É fundamental que a Europa assuma o seu papel e pense em termos geopolíticos, seguindo a tendência que a nova presidente está a tentar implementar. Contudo, para definir e pensar em termos geopolíticos, é preciso definir quais são os interesses permanentes, e a Europa tem vindo a falhar nessa definição. Por isso, deve trabalhar com as outras democracias, como a Austrália, a Nova Zelândia, os EUA, a Índia, a Coreia do Sul e o Japão.

Henrique Burnay, sócio-gerente da Eupportunity, também elogia o caminho, ainda embrionário, da nova Comissão. Afirma que esta se apresentou com um posicionamento geopolítico, pensando na Europa como um ator global e, sobretudo, como um ator económico. Assente na dupla transição – a verde e a digital –, a convicção das instituições europeias defende que é possível ganhar liderança industrial.

De acordo com o especialista, esta é uma Europa que quer ganhar competências e capacidade na cadeia de valor da economia verde, ocupando um lugar de destaque na geoestratégia global. Ou seja, usar a transição verde como política económica, implementando medidas como a penalização de importações que vêm de países onde não haja um custo associado às emissões de CO2 e, também, o apoio às indústrias europeias – não só nos custos que terão devido à transição, mas sobretudo para fazer com que sejam líderes nesta nova economia.

Na transição digital o caso parece um pouco diferente, seguindo uma lógica mais francesa. Não é por acaso, como lembra Burnay, que o Mercado Interno, a Indústria, o Digital e a Defesa são pastas ao cuidado de um comissário dessa nacionalidade, Thierry Breton. Nesta matéria, o pressuposto da UE é o de technopolitics, ou seja, a geopolítica ligada à questão da tecnologia.

A concorrência na UE

A perceção que está a ser seguida na União Europeia é a de que os campeões globais não são europeus e é preciso que passem a ser. Existe a convicção de que um setor de defesa forte pede uma indústria que o sirva e permite que se justifique uma visão mais protecionista, assente nas indústrias do território dessa área. Há, assim, uma clara ligação entre os conceitos de campeões digitais, segurança e defesa e a ideia de geopolítica.

Como explica o especialista, estas visões têm alimentado a ideia de transformar o critério de avaliação das questões de concorrência da UE. Hoje em dia, um problema de concorrência posto às autoridades europeias é avaliado à luz do mercado interno, mas começa já a pensar-se que, talvez, deva ser avaliado à luz do mercado global. A prioridade passa a ser criar condições de competição à escala global e não tanto garantir a competitividade à escala meramente europeia. Isto altera, em vários domínios, aquilo que é o mercado interno e como deve ser tratado.

Por outro lado, é importante perceber que os ideais alemães e franceses não são propriamente iguais. A Alemanha de Merkel tem tido uma visão muito mercantilista da Europa no mundo, daí uma visão de apaziguamento com a China. Já a França de Macron reflete uma visão europeia de projeção do poder francês.

Com a saída do Reino Unido, a única potência militar nuclear europeia é França; e é também a única que tem lugar no Conselho de Segurança das Nações Unidas.

Além da indefinição europeia quanto ao papel que quer desempenhar regionalmente, Burnay realça que é muito difícil ser-se uma potência regional sem disponibilidade para ser uma potência militar. Ao mesmo tempo, sendo a UE, maioritariamente, membro da Organização do Tratado do Atlântico Norte (NATO), a sua estrutura de defesa tem que lhe estar associada. Por isso, começa a criar-se alguma tensão sobre as temáticas da concorrência e do papel europeu na geoestratégia global.

O caminho das empresas portuguesas

António Costa Silva considera que a trajetória económica de Portugal é muito pobre, com um PIB per capita que se tem situado, nos últimos 20 anos, entre 30 a 40% abaixo da média europeia. Para reverter a situação, e ter um futuro mais promissor, é necessário o enfoque nas alavancas que podem permitir um crescimento sustentável do produto interno bruto.

Seguindo essa rota, é necessário investir na educação e, claro, em inovação e investimento tecnológico. No final de 2019, mais de 4 mil pequenas e médias empresas (PME) reportaram investimentos nessa área, ultrapassando o investimento público – o que é um sinal muito importante. Para o consultor do governo, essas PME devem ser mapeadas e cartografadas, de forma a atrair investimento externo, ligado a uma aposta contínua no sistema de investigação e desenvolvimento tecnológico.

Terminamos 2019 com 1,4% do PIB investido em inovação e em desenvolvimento tecnológico. É pouco, temos que chegar a 3% em 10 anos.

A Saúde apresenta-se como um setor crucial para o futuro das empresas portuguesas, especificamente no que respeita às biotecnologias. Costa Silva assinala as imensas capacidades que existem em Portugal, ao nível das empresas, na fermentação industrial e na criação de substâncias ativas de medicamentos, bem como equipamentos e dispositivos médicos complexos. É, assim, possível transformar Portugal numa espécie de fábrica da Europa voltada para o cluster das biotecnologias.

Também é necessário apostar nas indústrias têxtil e metalomecânica ligeira e pesada, aproveitando o novo impulso da digitalização para competir a nível global. Com a impressão 3D e as novas tecnologias, Portugal poderá fabricar bens e equipamentos com vista a desenhar uma estratégia inteligente de substituição das importações. E como a tecnologia já o permite, devemos implementar a Internet no território; ou seja, usar todos os sistemas inteligentes à disposição para renovar a nossa própria presença no país – alimentando o renascimento da agricultura, mas também para defender a floresta e criar oportunidades para as empresas que desenvolvem os drones, os sensores e todas essas tecnologias.

Por último, o especialista relembra a componente marítima, que considera absolutamente vital. Segundo o seu parecer, Portugal pode desenvolver a relação continental com a Europa e a relação marítima com o mundo, em simultâneo.

O soft power português na geoestratégia global

Feitas as contas, a verdade é que nem os Estados Unidos da América nem a China foram líderes no domínio da pandemia. Houve uma vazio inquietante de liderança, mas Portugal e a União Europeia devem aproveitar a transformação do quadro da geoestratégia global para colaborar com outras democracias em favor do multilateralismo.

Se, por um lado, é evidente que ainda há muito a fazer e a crescer no contexto nacional, por outro, Costa Silva acredita que Portugal tem o potencial de agregar vontades. O especialista sugere que se comece na própria região, com os países do sul da Europa e do norte de África, sediando no país uma espécie de capital mediterrânica na luta contra as alterações climáticas. Com o soft power português, é possível mobilizar uma série de consórcios junto de instituições e empresas internacionais.

Penso que é a altura de Portugal pôr o seu soft power a favor da economia.

Quanto às empresas, existem capacidades e competências funcionais de grande importância para o futuro – na área da eletrónica, do tratamento de dados, do software, etc. Dentro destes setores, é preciso investir para atrair empresas do exterior e galvanizar soluções. E o mesmo acontece na bioeconomia, com empresas portuguesas que estão na primeira linha a desenvolver soluções para substituir os plásticos. É necessário dar-lhes dimensão, captar investimento exterior e alargar o seu mercado através das plataformas eletrónicas.

Sabemos fazer, sabemos desenvolver produtos e criar inovação em Portugal.

O consultor do governo não tem dúvidas: Portugal é um país que não cresce, mas, simultaneamente, tem capacidades e competências funcionais ao nível da criação de produtos e do know how. A falha está, segundo o seu parecer, nas competências institucionais e nas políticas públicas. É, por isso, fundamental que se gerem mais plataformas de entendimento, para que se possa trabalhar numa rota de crescimento, diminuindo o conteúdo importado das exportações nacionais e comunicando mais e melhor internamente.

Os próximos 10 anos: desafios estratégicos para as empresas

Henrique Burnay é taxativo na avaliação dos desafios que se colocam perante o futuro das organizações portuguesas. Seguindo a lógica da UE, é necessário que se olhe para as transições verde e digital como políticas económicas. Essa mentalidade levanta, de imediato, duas questões para as empresas: os custos de adaptação a uma economia que passará a ser diferente, e que pede que se prestem serviços de outra maneira (digital) e com outro tipo de impactos (climáticos); e a necessidade de existirem indústrias que contribuam para essa nova economia.

Não basta que as empresas portuguesas sejam modernizadas e verdes. É preciso que exista uma contribuição económica ativa no novo ciclo que agora se está a implementar na Europa. Para que isso se torne uma realidade, Burnay defende que é essencial uma maior participação portuguesa no programa europeu Horizonte 2020.

Temos que ter coragem de perceber que para participar nesses projetos é preciso fazer parcerias.

A internacionalização não chegará por meio dos financiamentos, mas sobretudo pela ligação a outros players importantes, seguindo os seus exemplos. Só assim se gera inovação e se ganha terreno na competitividade global.

Para o sócio-gerente da Eupportunity, a mentalidade de que Portugal é um país pequeno não ajuda ao desenvolvimento. Na verdade, no contexto europeu, Portugal é um país médio e as empresas nacionais devem almejar um espaço de competição na Europa, rejeitando o “penduro” do Estado e ganhando coragem para arriscar. Assim, e privilegiando o planeamento a médio prazo, com o devido apoio dos decisores políticos, as PME portuguesas vão conquistar mais relevância, crescer e poderão atuar como agentes verdadeiramente internacionais.

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